Por que repetimos aquilo que nos faz sofrer?

Como os padrões emocionais aprendidos na infância influenciam nossas escolhas na vida adulta

Você já percebeu que algumas situações parecem se repetir na sua vida, mesmo depois de prometer que faria tudo diferente?

Pode ser a dificuldade de dizer não, a necessidade constante de aprovação, a escolha de relacionamentos que provocam sofrimento ou o hábito de assumir responsabilidades que ultrapassam seus próprios limites. Em algum momento, você reconhece o problema, compreende suas consequências e decide mudar. Mas, quando se dá conta, está novamente diante de uma experiência muito parecida.

O que chama a atenção nessas situações é que, muitas vezes, a pessoa sabe o que gostaria de fazer, mas encontra dificuldades para agir de outra maneira.

Por que repetimos padrões que nos fazem sofrer? O que as experiências da infância têm a ver com nossas escolhas na vida adulta? E por que compreender racionalmente um comportamento nem sempre é suficiente para modificá-lo?

Essas perguntas atravessam a história da psicanálise e encontram novas possibilidades de reflexão na neurociência contemporânea, especialmente no campo da neuropsicanálise.

Por que repetimos os mesmos comportamentos mesmo sabendo que nos fazem mal?

Em 1920, Sigmund Freud publicou Além do princípio do prazer, obra na qual aprofundou suas reflexões sobre um fenômeno observado na experiência clínica: a repetição de situações e conflitos que produziam sofrimento.

Freud chamou esse fenômeno de compulsão à repetição.

Sua investigação partia de uma questão intrigante. Se buscamos satisfação e procuramos evitar experiências desagradáveis, por que determinados acontecimentos dolorosos parecem retornar à nossa vida psíquica?

Na clínica psicanalítica, Freud observou que experiências anteriores podiam reaparecer nas relações estabelecidas pelos pacientes, inclusive na relação com o próprio analista. Conflitos que não eram plenamente reconhecidos podiam encontrar novas formas de expressão no presente.

Essa compreensão abriu espaço para investigar a influência dos processos inconscientes sobre o comportamento humano.

Pense em uma mulher que cresceu tentando corresponder às expectativas de sua família. Na vida adulta, ela conquista independência financeira, desenvolve uma carreira e assume diferentes responsabilidades. Ainda assim, sente enorme dificuldade para contrariar alguém e experimenta culpa quando decide priorizar suas próprias necessidades.

Ela reconhece que precisa estabelecer limites, mas o desconforto emocional que acompanha essa decisão parece maior do que imaginava.

Situações como essa podem envolver aprendizagens antigas, expectativas sobre os relacionamentos e conflitos emocionais. Isso não significa que toda dificuldade de estabelecer limites seja uma compulsão à repetição. O conceito freudiano tem um significado específico e não deve ser aplicado automaticamente a qualquer comportamento recorrente.

A contribuição da psicanálise está em investigar o significado que essas experiências assumem na história de cada pessoa.

Como as experiências da infância influenciam nossos padrões emocionais?

A infância é um período importante para a construção das primeiras experiências de vínculo, segurança e reconhecimento.

Antes mesmo de conseguir compreender racionalmente as situações que vive, a criança já participa de relações nas quais aprende maneiras de expressar necessidades, responder aos conflitos e buscar proximidade com as pessoas responsáveis por seus cuidados.

Uma menina que cresce em um ambiente de críticas frequentes pode aprender a observar cuidadosamente o comportamento dos adultos para evitar desaprovação. Outra, que percebe que suas emoções são constantemente desconsideradas, pode desenvolver dificuldades para expressar tristeza, raiva ou insatisfação.

Na vida adulta, essas aprendizagens podem aparecer em situações aparentemente diferentes. A primeira pode se tornar uma profissional muito exigente consigo mesma, preocupada com qualquer possibilidade de erro. A segunda pode encontrar dificuldades para comunicar suas necessidades em um relacionamento, mesmo quando existe espaço para o diálogo.

Esses exemplos ajudam a compreender como experiências anteriores podem influenciar expectativas e respostas emocionais. Entretanto, não representam uma regra para todas as pessoas.

Uma revisão sistemática publicada em 2025, realizada por Emma Maloney, Clodagh Dowling e Gary O’Reilly, reuniu 26 estudos sobre experiências adversas na infância e funcionamento interpessoal na vida adulta. Os resultados identificaram associações entre maior exposição a adversidades precoces e dificuldades em aspectos como comunicação, administração de conflitos e construção de relações de apoio.

Esses achados reforçam a importância das experiências infantis, mas também exigem cuidado na interpretação. Associações estatísticas não significam que todas as pessoas que viveram situações difíceis na infância desenvolverão os mesmos comportamentos.

O desenvolvimento humano envolve características individuais, condições sociais, experiências posteriores e relações que podem oferecer novas oportunidades de aprendizagem.

Nossa história influencia a maneira como percebemos o mundo, mas continua sendo construída ao longo da vida.

O que a neuropsicanálise explica sobre a repetição do sofrimento?

A neuropsicanálise é um campo interdisciplinar que procura aproximar a investigação psicanalítica da experiência subjetiva dos conhecimentos produzidos pelas neurociências.

Entre seus principais representantes está Mark Solms, neuropsicólogo e psicanalista que revisitou conceitos fundamentais da teoria freudiana a partir de pesquisas sobre consciência, afetos, necessidades do organismo e aprendizagem.

Em seu artigo Revision of Drive Theory, publicado no Journal of the American Psychoanalytic Association, Solms propõe uma revisão da teoria das pulsões e atribui aos sentimentos um papel fundamental na organização da experiência consciente e na orientação do comportamento.

Para compreender essa proposta, precisamos considerar que os sentimentos participam da maneira como reconhecemos nossas necessidades.

O medo pode mobilizar respostas de proteção. A frustração pode indicar que algo esperado não aconteceu. A satisfação acompanha experiências em que determinadas necessidades são atendidas.

Esses estados afetivos não representam apenas reações que surgem depois dos acontecimentos. Eles participam da regulação do organismo e podem influenciar aquilo que aprendemos sobre o ambiente.

Ao longo da vida, desenvolvemos diferentes maneiras de responder às nossas necessidades emocionais e corporais. Algumas dessas respostas são aprendidas em circunstâncias nas quais nossas possibilidades de ação são bastante limitadas.

Uma criança que depende de adultos pouco disponíveis emocionalmente pode aprender estratégias para conseguir atenção ou evitar conflitos. Essas estratégias podem fazer sentido naquele contexto, ainda que tragam dificuldades posteriormente.

Na vida adulta, a pessoa pode continuar recorrendo a formas semelhantes de comportamento diante de situações que despertam sentimentos parecidos.

Essa é uma das possibilidades de diálogo entre a neuropsicanálise e os estudos contemporâneos sobre aprendizagem: experiências emocionalmente significativas podem influenciar a maneira como respondemos a situações futuras.

É importante esclarecer que essa aproximação não representa uma comprovação experimental de toda a teoria freudiana. A neuropsicanálise reúne propostas teóricas e investigações científicas que continuam sendo discutidas e desenvolvidas.

Repetimos porque desejamos sofrer? A contribuição de Mark Solms

Essa talvez seja uma das questões mais interessantes quando aproximamos Freud e Solms.

Ao investigar a compulsão à repetição, Freud desenvolveu a hipótese da pulsão de morte, conceito que procurava explicar fenômenos que pareciam ultrapassar a busca pelo prazer e pela satisfação.

A hipótese tornou-se uma das mais debatidas da teoria psicanalítica.

Solms propõe uma interpretação diferente. Em sua revisão da teoria das pulsões, ele questiona a existência de uma pulsão de morte como força fundamental da vida psíquica e considera as pulsões relacionadas à preservação e à regulação das necessidades do organismo.

Em sua formulação, os sentimentos participam da aprendizagem de respostas que procuram atender a essas necessidades. O problema é que aquilo que foi aprendido anteriormente nem sempre continua funcionando nas circunstâncias atuais.

Imagine uma mulher que, durante a infância, aprendeu que discordar de alguém importante poderia provocar afastamento ou conflitos. Evitar discordâncias pode ter se tornado uma maneira de preservar seus vínculos.

Anos depois, essa mesma mulher reconhece que precisa se posicionar no ambiente profissional, mas continua experimentando ansiedade ou culpa quando precisa expressar uma opinião contrária.

A situação mudou. Ela possui mais recursos e autonomia. Entretanto, a resposta emocional pode continuar sendo mobilizada diante de circunstâncias que lembram experiências anteriores.

Esse exemplo permite compreender a repetição por uma perspectiva diferente daquela que sugere uma busca pelo sofrimento.

A pessoa pode continuar utilizando uma resposta aprendida, mesmo quando ela já não atende adequadamente às suas necessidades.

Isso não significa que todas as repetições sejam explicadas dessa maneira. Os comportamentos humanos são influenciados por fatores emocionais, sociais, culturais e materiais que precisam ser considerados em conjunto.

A contribuição de Solms está em destacar a importância dos afetos e da aprendizagem na compreensão da vida psíquica, oferecendo novas possibilidades de reflexão sobre questões originalmente formuladas por Freud.

Por que entender o problema nem sempre é suficiente para mudar?

Uma pessoa pode compreender intelectualmente um comportamento e continuar experimentando as mesmas dificuldades emocionais diante de determinadas situações.

Isso acontece porque nossas respostas não dependem exclusivamente de decisões conscientes.

A neurociência investiga diferentes processos de aprendizagem, incluindo aqueles relacionados à formação de hábitos e à associação entre situações, expectativas e comportamentos.

Em uma revisão publicada em 2024 na revista Current Opinion in Psychology, os pesquisadores Marco Stojanovic e Wendy Wood discutem como os hábitos permitem automatizar ações e facilitar a realização de objetivos.

Entretanto, quando nossos objetivos mudam, respostas habituais anteriormente aprendidas podem continuar sendo acionadas, especialmente em contextos semelhantes àqueles nos quais foram desenvolvidas.

Esse mecanismo não explica, sozinho, a repetição de conflitos emocionais complexos. Ainda assim, oferece uma contribuição importante para compreender por que uma decisão consciente pode não produzir imediatamente uma mudança de comportamento.

Pense em alguém que passou muitos anos respondendo prontamente a todas as solicitações profissionais. Mesmo depois de reconhecer que precisa reorganizar sua rotina, pode continuar aceitando tarefas automaticamente, antes de avaliar se realmente possui disponibilidade.

Em situações que envolvem vínculos afetivos, o processo pode ser ainda mais complexo, pois entram em cena sentimentos, expectativas, experiências anteriores e condições concretas de vida.

A compreensão racional pode representar um passo importante, mas a mudança também envolve experiências nas quais novas formas de responder se tornam possíveis.

É nesse ponto que a investigação psicanalítica da experiência subjetiva e os estudos neurocientíficos sobre aprendizagem podem estabelecer um diálogo produtivo, respeitando as diferenças entre seus métodos e explicações.

Por que algumas pessoas repetem os mesmos padrões nos relacionamentos?

Os relacionamentos são um dos espaços em que nossas expectativas emocionais se manifestam com maior intensidade.

Ao longo da vida, construímos ideias sobre o que esperar das outras pessoas, como reagir diante de conflitos e de que maneira buscar segurança e reconhecimento.

Uma pessoa que cresceu em um ambiente marcado por críticas pode desenvolver uma expectativa frequente de desaprovação. Outra, que aprendeu a associar afeto à necessidade de corresponder às expectativas alheias, pode sentir grande dificuldade para expressar seus próprios desejos.

Essas experiências podem influenciar os relacionamentos adultos, mas não determinam inevitavelmente a escolha de parceiros ou a qualidade dos vínculos.

Também precisamos evitar uma interpretação muito comum: a ideia de que alguém permanece em uma relação prejudicial simplesmente porque está repetindo um padrão inconsciente.

Em situações de violência, por exemplo, podem existir ameaças, dependência financeira, isolamento, medo e outras condições que restringem concretamente a liberdade de decisão.

Reduzir essas experiências à repetição de conflitos infantis seria desconsiderar a complexidade da realidade vivida.

A investigação da história emocional pode contribuir para compreender determinados comportamentos, mas deve caminhar junto com o reconhecimento das circunstâncias presentes.

Como mudar padrões de comportamento aprendidos na infância?

Uma das características mais importantes do cérebro humano é sua capacidade de aprender e se modificar ao longo da vida, conhecida como neuroplasticidade.

Isso significa que nossas experiências continuam participando da organização do funcionamento cerebral, mesmo depois da infância.

Novas relações, oportunidades de aprendizagem, mudanças no ambiente e processos terapêuticos podem contribuir para a construção de respostas diferentes daquelas utilizadas anteriormente.

Na experiência analítica, investigar um padrão repetitivo envolve compreender os sentimentos, conflitos e significados que acompanham determinadas situações.

Uma mulher que reconhece sua dificuldade de estabelecer limites pode começar a perceber em quais circunstâncias essa reação aparece, o que sente quando precisa contrariar alguém e como essas experiências se relacionam com sua história.

Aos poucos, essa compreensão pode favorecer novas possibilidades de escolha.

Entretanto, reconhecer um padrão não significa conseguir modificá-lo imediatamente. A elaboração emocional pode exigir tempo, assim como a construção de novas experiências e formas de comportamento.

Os estudos sobre hábitos também mostram que mudanças no contexto e nas condições que sustentam uma resposta podem ser importantes para modificar comportamentos automatizados.

Esses conhecimentos não oferecem uma fórmula única para a transformação emocional. Cada pessoa possui uma história, recursos e condições de vida que influenciam seu processo.

A possibilidade de mudança existe, mas não depende exclusivamente da força de vontade.

O que podemos aprender quando uma situação se repete?

Ao longo da vida, aprendemos maneiras de buscar afeto, lidar com conflitos, encontrar segurança e conquistar reconhecimento.

Algumas dessas respostas continuam sendo importantes. Outras podem permanecer presentes mesmo quando já não correspondem às nossas necessidades ou às circunstâncias atuais.

Quando percebemos que uma experiência dolorosa se repete, é comum sentir frustração e questionar por que não conseguimos agir de outra maneira.

A psicanálise nos convida a investigar o significado dessas experiências. A neurociência contribui para compreender como aprendizagem, memória e respostas habituais participam do comportamento. A neuropsicanálise, por sua vez, procura estabelecer um diálogo entre essas perspectivas, destacando a importância dos sentimentos e das necessidades na organização da vida psíquica.

Conhecer nossa história pode ajudar a reconhecer padrões, compreender emoções e perceber possibilidades que antes não estavam tão claras.

O passado participa da construção de quem somos, mas nossas experiências continuam sendo transformadas pelas relações e aprendizagens que estabelecemos ao longo da vida.

Talvez, diante de uma situação que se repete, valha a pena formular uma pergunta diferente:

“Será que a maneira como estou tentando resolver esse problema ainda é a mesma que aprendi quando tinha poucas possibilidades de escolher?”

Essa reflexão pode ser o início de uma compreensão mais profunda sobre nossas escolhas e sobre as mudanças que desejamos construir.

Kívia Tenório

Psicanalista e especialista em Neurociência do Comportamento Humano

Whatsapp: 21 97320-1087

www.kiviatenoriopsi.com.br

Instagram: @kiviatenorio.psi

Referências

FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer. 1920.

SOLMS, Mark. Revision of Drive Theory. Journal of the American Psychoanalytic Association, v. 69, n. 6, p. 1033-1091, 2021. Publicado on-line em 2022. DOI: 10.1177/00030651211057041.

MALONEY, Emma; DOWLING, Clodagh; O’REILLY, Gary. Adverse childhood experiences and interpersonal functioning in adulthood: A systemic review. European Journal of Trauma & Dissociation, v. 9, n. 2, artigo 100534, 2025. DOI: 10.1016/j.ejtd.2025.100534.

STOJANOVIC, Marco; WOOD, Wendy. Beyond deliberate self-control: Habits automatically achieve long-term goals. Current Opinion in Psychology, v. 60, artigo 101880, 2024. DOI: 10.1016/j.copsyc.2024.101880.

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